Tatuagem para cobrir as marcas da violência

Tatuagem para cobrir as marcas da violência

Compartilhe

Temos claro que 8 de Março não é um dia para presentes, rosas ou festejos. No Dia Internacional da Mulher é preciso lembrar que a igualdade entre homens e mulheres ainda não foi conquistada, e que a face mais perversa da desigualdade de gênero é a violência que vitima bilhões de mulheres no mundo.

Então, nesse 8 de Março de 2016 daremos o merecido destaque a um projeto muito bacana que vem nos encantando há algum tempo. A tatuadora Flavia Carvalho lá de Curitiba cobre gratuitamente com a sua arte as marcas deixadas pela violência machista nos corpos de mulheres que por pouco não perderam a vida, e aos poucos tentam resgatar a autoestima e apagar as lembranças terríveis de seus agressores. O projeto se chama A PELE DA FLOR, e agora tem uma página especial no facebook, F(a)la Beluga, inteiramente dedicado a registrar esse trabalho e outros projetos assistenciais da artista com uma abordagem feminista.

tatuadora Flavia Carvalho (foto: reprodução/facebook)

tatuadora Flavia Carvalho (foto: reprodução/facebook)

Flavia, que é tatuadora há pouco mais de cinco anos, conta que ela mesma foi vítima de violência em seu primeiro relacionamento aos 15 anos de idade. O namorado a agredia, depois se desculpava e jurava não bater, eles voltavam e  ele voltava a agredi-la. Esse vai-e-vem é muito comum no ciclo da violência doméstica, é doloroso, perverso, e dentro dele a violência cresce num constante até chegar à tentativa de homicídio (feminicídio, agora). Dez mulheres por dia no Brasil não sobrevivem ao final deste ciclo. Muitas outras sobrevivem, mas ficam marcadas.

Dez anos depois de ter superado sem maiores traumas o seu ciclo pessoal de violência, e já como tatuadora profissional, estava Flavia de novo diante de um caso de violência. “A cliente tinha uma cicatriz bem grande no abdômen. Eu não perguntei, mas ela foi me contando que estava numa boate, um cara a abordou e ela não quis beijá-lo. Ela saiu e foi ao banheiro, mas ele a abordou de novo e a golpeou com um canivete. Ela precisou ser hospitalizada, ficou aquela marca bem grande. E depois de muito tempo, ela quis fazer uma tatuagem para cobrir a cicatriz. Foi transformador pra ela, ela tinha vergonha de usar biquíni, e a reação dela quando viu que não tinha mais a cicatriz me comoveu“, conta Flavia sobre como surgiu a ideia do projeto.

Eu fiquei pensando no tanto de mulher que sofre violência doméstica, mas que não tem condição de fazer tatuagem, plástica ou algo para cobrir aquela marca. As cicatrizes fazem com que a mulher fique sempre lembrando da agressão e mudam a relação delas com o próprio corpo“.

Passados dois anos dessa primeira tatuagem, em julho de 2015 Flavia firmou uma parceria com a Secretaria da Mulher da Prefeitura de Curitiba que lançou o projeto em seu site e facebook. Em menos de dois dias ela já havia recebido mais de 40 mensagens de mulheres contando suas histórias e pedindo para serem tatuadas. Quase todos os casos repetem a fórmula do feminicídio (ou tentativa de) clássico: o ex-companheiro/marido/namorado inconformado com o final do relacionamento tenta matar a ex ‘para que ela não seja de mais ninguém’. 🙁

Veja algumas das cicatrizes cobertas por Flavia com sua arte, ou melhor… Veja algumas das vidas que Flavia ajudou a recuperar com sua arte.

O ferimento foi causado por disparo de arma de fogo, que atingiu o útero e bexiga da vítima. Por conta disso, uma cirurgia de emergência teve que ser feita. Em procedimentos de emergência, muitas vezes o acesso (cortes) é aberto e fechado às pressas (afinal, no momento, o principal é fazer com que a vítima sobreviva!), resultando em cicatrizes muito extensas (foto: reprodução/facebook)

O ferimento foi causado por disparo de arma de fogo, que atingiu o útero e bexiga. Por conta disso, uma cirurgia de emergência teve que ser feita. Em procedimentos de emergência muitas vezes o acesso é aberto e fechado às pressas, resultando em cicatrizes muito extensas (foto: reprodução/facebook)

Cicatriz causada por golpes de arma branca! Para marcar uma história de redenção e renascimento, nada melhor que uma tatuagem de fênix (foto: reprodução/facebook)

Cicatriz causada por golpes de arma branca! Para marcar uma história de redenção e renascimento, nada melhor que uma tatuagem de fênix (foto: reprodução/facebook)

Mais uma cicatriz causada por facada (foto: reprodução/facebook)

Mais uma cicatriz causada por facada (foto: reprodução/facebook)

As cicatrizes da frente do tronco foram causadas por disparo de arma de fogo (a ala atingiu o meio do peito e parou na coluna, onde ainda está alojada), que exigiu cirurgia de emergência e rendeu o corte por toda a extensão do abdomen. Pra piorar, houve erro médico (o cirurgião esqueceu um pedaço da cânula do dreno dentro do corpo, que infeccionou e quase custou a vida da vítima, que teve que passar por novas cirurgias de emergências, ganhando mais cicatrizes (foto: reprodução/facebook)

As cicatrizes da frente do tronco foram causadas por disparo de arma de fogo (a ala atingiu o meio do peito e parou na coluna, onde ainda está alojada), que exigiu cirurgia de emergência e rendeu o corte por toda a extensão do abdomen. Pra piorar, houve erro médico (o cirurgião esqueceu um pedaço da cânula do dreno dentro do corpo, que infeccionou e quase custou a vida da vítima, que teve que passar por novas cirurgias de emergências, ganhando mais cicatrizes (foto: reprodução/facebook)

As marcas de "hematomas permanentes" e equimoses, foram causadas por chutes dados por ex-companheiro (foto: reprodução/facebook)

As marcas de “hematomas permanentes” e equimoses, foram causadas por chutes dados por ex-companheiro (foto: reprodução/facebook)

Ferimento causado por caco de vidro - agressão de ex-companheiro (foto: reprodução/facebook)

Ferimento causado por caco de vidro – agressão de ex-companheiro (foto: reprodução/facebook)

A cicatriz foi causada por uma forma de violência contra a mulher muito comum, quando o agressor, num "puxão" violento no braço da vítima (quando ela tenta se afastar da discussão e etc), fratura o braço da mesma, necessitando de imediato internamento médico e, muitas vezes, cirurgia reparadora (foto: reprodução/facebook)

A cicatriz foi causada por uma forma de violência contra a mulher muito comum, quando o agressor, num “puxão” violento no braço da vítima (quando ela tenta se afastar da discussão e etc), fratura o braço da mesma, necessitando de imediato internamento médico e, muitas vezes, cirurgia reparadora (foto: reprodução/facebook)

Mais um caso de tentativa de feminicídio "clássico", causado por ex-companheiro inconformado com o fim do relacionamento que atacou a vítima com arma branca. Além das facadas, as marcas são oriundas de cirurgia de emergência (trauma abdominal fechado) e drenos (foto: reprodução/facebook)

Mais um caso de tentativa de feminicídio “clássico”, causado por ex-companheiro inconformado com o fim do relacionamento que atacou a vítima com arma branca. Além das facadas, as marcas são oriundas de cirurgia de emergência (trauma abdominal fechado) e drenos (foto: reprodução/facebook)

Foi um caso de tentativa de feminicídio, em que o ex-companheiro, inconformado com o fim do relacionamento, atacou a mulher com golpes de faca em várias partes do corpo. As marcas na perna eram as que mais incomodavam, então a tattoo foi escolhida para esse local (foto: reprodução/facebook)

Foi um caso de tentativa de feminicídio, em que o ex-companheiro, inconformado com o fim do relacionamento, atacou a mulher com golpes de faca em várias partes do corpo. As marcas na perna eram as que mais incomodavam, então a tattoo foi escolhida para esse local (foto: reprodução/facebook)

Tentativa de homicídio com uso de arma branca (mais uma!), a vítima levou 19 facadas do ex-companheiro, começamos a cobrir as mais aparentes (na mão e antebraços) com mandalas e padrões indianos (foto: reprodução/facebook)

Tentativa de homicídio com uso de arma branca (mais uma!), a vítima levou 19 facadas do ex-companheiro, começamos a cobrir as mais aparentes (na mão e antebraços) com mandalas e padrões indianos (foto: reprodução/facebook)

Cicatriz causada por um tiro disparado pelo ex-companheiro (foto: reprodução/facebook)

Cicatriz causada por um tiro disparado pelo ex-companheiro (foto: reprodução/facebook)

[fotos e relatos retirados da página Fala Beluga do facebook]

 

Vida longa ao projeto A Pele da Flor! 

Compartilhe